Por que há tantos indianos nos Emirados Árabes Unidos?

Vista noturna de Dubai com arranha-céus iluminados e reflexos brilhando sobre a água

Os Emirados Árabes Unidos (EAU) são conhecidos por seus arranha-céus, luxo e ritmo de crescimento acelerado. No entanto, por trás dessa grandiosidade, há uma presença silenciosa, porém fundamental, que ajudou a construir o país moderno: a comunidade indiana. Hoje, os indianos formam a maior população expatriada dos Emirados, desempenhando papéis essenciais em todos os setores — da construção civil à alta administração.

Mas por que existem tantos indianos vivendo e trabalhando nos Emirados? A resposta está em uma combinação de história, geografia, economia e conexões culturais que se fortaleceram ao longo de décadas.

Durante o período colonial, tanto a Índia britânica quanto os territórios do Golfo estavam sob influência do Reino Unido. Essa condição criou um ambiente administrativo, jurídico e comercial relativamente integrado, que facilitou a circulação de pessoas, mercadorias e capitais entre as duas regiões.

Comerciantes indianos passaram a desempenhar um papel central na economia do Golfo, especialmente em Dubai, onde atuavam de forma destacada nos setores de comércio, câmbio, navegação e logística portuária. Essa ligação política indireta, mediada pela administração britânica, fortaleceu laços econômicos e sociais que já existiam há séculos, consolidando uma presença indiana duradoura na região.

Os Trucial States (ou Estados da Trégua) eram um conjunto de xeicados localizados na costa sudeste do Golfo Pérsico que, ao longo do século XIX, assinaram tratados de proteção marítima com o Reino Unido.
Esses acordos tinham como principais objetivos:
— garantir a segurança das rotas marítimas,
— reduzir conflitos tribais,
— e combater a pirataria no Golfo.

Em troca da proteção britânica, os xeicados abriram mão de parte de sua autonomia em política externa. Os Trucial States incluíam Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ajman, Umm Al Quwain, Fujairah e Ras Al Khaimah — territórios que, posteriormente, formariam os Emirados Árabes Unidos.

Reunião do Trucial States Council por volta de 1969, com representantes dos xeicados e assessores jurídicos em encontro preparatório para a formação da federação
Reunião do Trucial States Council, c. 1969 — representantes dos xeicados e assessores jurídicos em reunião preparatória para a federação

A criação dos Emirados Árabes Unidos, em 1971, ocorreu após a decisão do Reino Unido de se retirar militarmente da região do Golfo. Esse anúncio alterou profundamente o equilíbrio político local e gerou preocupações relacionadas à segurança e à estabilidade regional.
Diante desse novo cenário, os líderes dos emirados compreenderam que a união política era essencial para:
— preservar a soberania,
— garantir defesa coletiva,
— e promover desenvolvimento econômico sustentável.

A federação permitiu o compartilhamento de recursos e a coordenação de políticas estratégicas. Abu Dhabi, com suas vastas reservas de petróleo, e Dubai, com sua tradição comercial e portuária, tornaram-se os pilares centrais do novo Estado, combinando riqueza energética e vocação mercantil em um modelo federativo singular no mundo árabe.

O Dia Nacional dos Emirados Árabes Unidos é celebrado em 2 de dezembro.
Essa data marca:
— a formação oficial da federação em 2 de dezembro de 1971,
— a união inicial de seis emirados,
— com Ras Al Khaimah integrando-se à federação em 1972.
O dia é comemorado anualmente com celebrações cívicas, eventos culturais e manifestações de orgulho nacional, simbolizando a consolidação de um projeto político baseado na cooperação entre os emirados.

As relações entre a Índia e a região do Golfo Pérsico remontam a milênios, muito antes da existência de fronteiras nacionais modernas. Desde a Antiguidade, comunidades costeiras do oeste da Índia mantinham contato regular com portos da Península Arábica por meio das rotas marítimas do Mar da Arábia e do Oceano Índico.

Navegadores indianos dominavam o uso dos ventos de monção, o que permitia viagens previsíveis entre a Índia, Omã, Bahrein e a costa do atual território dos Emirados Árabes Unidos. Especiarias, tecidos de algodão, arroz e madeira eram trocados por pérolas, tâmaras e cavalos árabes. Essas trocas estimularam não apenas o comércio, mas também a circulação de técnicas de navegação, práticas mercantis e influências culturais.

Trabalhadores indianos atuando no porto de Dubai durante a década de 1950, em uma imagem histórica em preto e branco.
Fotografia de arquivo mostra trabalhadores indianos no porto de Dubai nos anos 1950, período em que a presença indiana teve papel fundamental na construção das bases comerciais da região

Muito antes da criação dos Emirados Árabes Unidos em 1971, cidades como Dubai e Sharjah já funcionavam como importantes entrepostos comerciais regionais. Comerciantes indianos, especialmente de Gujarat, Kerala e da região de Mumbai, estabeleceram presença contínua nesses portos.

Essas comunidades atuavam como intermediárias entre o subcontinente indiano e o mundo árabe, facilitando o comércio regional e criando redes econômicas duradouras. Essa presença indiana no Golfo não foi episódica, mas estrutural e contínua, formando a base das relações modernas entre as duas regiões.

A descoberta de petróleo nas décadas de 1950 e 1960 transformou profundamente a região. Os Emirados passaram rapidamente de economias baseadas na pesca, no comércio e na extração de pérolas para sociedades em intensa modernização.
Esse crescimento acelerado exigia mão de obra numerosa, disciplinada e qualificada, algo que a população local não conseguia suprir sozinha. A Índia, com sua grande força de trabalho, tornou-se uma fonte natural de trabalhadores para setores como construção, engenharia, saúde e serviços.

Arranha-céus modernos de Dubai vistos sob o céu azul, simbolizando o rápido desenvolvimento da cidade
Os impressionantes arranha-céus de Dubai refletem a grandiosidade e a inovação dos Emirados Árabes Unidos

A partir dos anos 1970 e 1980, milhares de indianos migraram para os Emirados em busca de melhores oportunidades. Dubai e Abu Dhabi tornaram-se destinos importantes para profissionais de todos os níveis — de engenheiros e médicos a operários e motoristas.

Com o tempo, essa migração deixou de ser temporária e passou a moldar a estrutura econômica do país. Hoje, estima-se que mais de 3,5 milhões de indianos vivam nos Emirados Árabes Unidos, representando cerca de 30% da população total, resultado direto de uma relação histórica que evoluiu do comércio antigo para uma profunda interdependência econômica moderna.

Gráfico mostrando o padrão de migração da Índia para os Emirados Árabes Unidos ao longo dos anos, com crescimento gradual da população indiana no país
Gráfico ilustra o padrão de migração da Índia para os Emirados Árabes Unidos ao longo das décadas, evidenciando o aumento contínuo da presença indiana impulsionado por oportunidades de trabalho e comércio

Kerala possui uma relação histórica com o mundo árabe muito anterior à formação dos Emirados Árabes Unidos. Desde a Antiguidade, mercadores árabes mantinham contato direto com a costa do Malabar, atraídos pelo comércio de especiarias. Essas interações facilitaram a circulação de pessoas, línguas e práticas culturais, criando uma familiaridade que, séculos depois, ajudaria na migração moderna.

Quando o boom do petróleo transformou o Golfo a partir das décadas de 1950 e 1960, trabalhadores de Kerala estavam geograficamente próximos, tinham experiência com comércio marítimo e já possuíam redes sociais e familiares ligadas à região. Isso fez com que keralitas estivessem entre os primeiros indianos a se deslocar para o Golfo em busca de trabalho.

Abaixo está uma música em malaiala misturada com melodia e cultura árabes.

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Outro fator decisivo foi o alto nível de alfabetização de Kerala em comparação com outras regiões da Índia. O estado investiu cedo em educação básica, o que resultou em uma força de trabalho capaz de se adaptar rapidamente a ambientes profissionais no exterior.

Keralitas encontraram oportunidades em setores que exigiam disciplina, comunicação e qualificação, como saúde, hotelaria, administração, comércio e serviços técnicos. Essa reputação positiva abriu portas para novos migrantes, reforçando um ciclo contínuo de contratação.

A migração para o Golfo teve um impacto profundo na economia de Kerala. As remessas enviadas pelos trabalhadores tornaram-se uma das principais fontes de renda do estado, sustentando famílias inteiras e impulsionando o consumo local.

Esses recursos ajudaram a financiar educação, saúde, habitação e pequenos negócios, elevando o padrão de vida em muitas regiões. Ao mesmo tempo, a economia de Kerala passou a depender fortemente do trabalho no exterior, criando uma relação estrutural entre o estado e o Golfo.

À medida que os primeiros migrantes se estabeleciam nos Emirados, surgia um poderoso efeito de rede. Familiares, amigos e conterrâneos passaram a seguir o mesmo caminho, confiantes na existência de empregos, apoio comunitário e adaptação cultural mais fácil.
Esse efeito multiplicador não ficou restrito a Kerala. O sucesso dos keralitas no Golfo tornou-se um modelo para outros estados indianos, estimulando a migração a partir de regiões como Tamil Nadu, Andhra Pradesh, Telangana, Punjab e Uttar Pradesh.

Atualmente, estima-se que mais de 1,2 milhão de keralitas vivam nos Emirados Árabes Unidos, atuando em setores estratégicos como saúde, engenharia, hotelaria, comércio e serviços. Em algumas cidades, o malaiala é amplamente ouvido no cotidiano, refletindo a presença profunda dessa comunidade.
A experiência de Kerala ilustra como migração, educação e redes sociais podem transformar não apenas a vida individual dos trabalhadores, mas também a estrutura econômica e social de uma região inteira, além de influenciar padrões migratórios em escala nacional.

indianos nos Emirados Árabes Unidos
Diversas associações malayalis atuam nos Emirados Árabes Unidos, promovendo regularmente festivais tradicionais como o Onam e fortalecendo os laços culturais da comunidade indiana no país

A Índia é um dos países linguisticamente mais diversos do mundo, e essa multiplicidade acompanha seus migrantes. Nos Emirados Árabes Unidos, especialmente em cidades como Dubai e Sharjah, a presença indiana é tão expressiva que várias línguas do subcontinente fazem parte do cotidiano urbano.
Hindi, malaiala, tâmil, télugo e punjabi são ouvidos regularmente em mercados, canteiros de obras, escritórios, ônibus e bairros residenciais, criando um ambiente multilíngue que reflete a composição da diáspora.

Dentro da comunidade indiana, o hindi cumpre um papel prático de língua de comunicação comum entre pessoas de diferentes estados e origens linguísticas. Em locais de trabalho e interações informais, ele facilita o diálogo entre falantes de línguas distintas, funcionando como um elo comunicativo.
Esse papel não substitui as línguas regionais, mas complementa o ecossistema linguístico da diáspora, permitindo integração sem apagamento cultural.

Entre os migrantes de Kerala, o malaiala mantém um papel central na vida cotidiana. Ele domina as interações familiares, atividades religiosas, associações comunitárias e eventos culturais.
A força do malaiala nos Emirados reflete não apenas o tamanho da comunidade keralita, mas também seu alto grau de organização social, com templos, igrejas, mesquitas e associações que preservam a língua e as tradições.

A influência linguística indiana é visível no espaço urbano. Muitas placas comerciais, anúncios e materiais promocionais aparecem em línguas indianas, especialmente em áreas com forte presença da diáspora.
Essa adaptação linguística demonstra o peso econômico e cultural dos indianos nos Emirados, além de facilitar o acesso a serviços e fortalecer o sentimento de pertencimento.

Canais de televisão, rádio e plataformas digitais em línguas indianas desempenham um papel fundamental na vida da diáspora. Eles mantêm os migrantes informados sobre acontecimentos na Índia e reforçam laços emocionais com suas regiões de origem.
Essa presença midiática ajuda a preservar identidades linguísticas e culturais, ao mesmo tempo em que integra a comunidade indiana ao cotidiano dos Emirados.

A maioria dos trabalhadores braçais em megaprojetos de Dubai, Abu Dhabi e Sharjah vem da Índia. Esses profissionais são a espinha dorsal das impressionantes obras que moldam o horizonte futurista dos Emirados Árabes Unidos — desde arranha-céus e ilhas artificiais até rodovias e estádios. Muitos desses trabalhadores deixam suas famílias na Índia em busca de melhores oportunidades, contribuindo significativamente para o desenvolvimento urbano do Golfo.

Médicos, enfermeiros e técnicos indianos desempenham um papel essencial nos hospitais e clínicas privadas dos Emirados. Reconhecidos por sua competência e dedicação, muitos deles ocupam cargos de destaque em instituições de referência em Dubai Healthcare City e Abu Dhabi Health Services. A presença indiana ajuda a garantir a qualidade dos serviços de saúde em uma população multicultural e em rápido crescimento.

As escolas indianas nos Emirados Árabes Unidos seguem currículos reconhecidos internacionalmente, como CBSE e ICSE, oferecendo ensino em inglês e valores culturais da Índia. Atendem a centenas de milhares de estudantes, filhos de expatriados, que crescem entre duas culturas e formam uma nova geração de cidadãos globais. Algumas escolas indianas de Dubai estão entre as melhores do Oriente Médio em desempenho acadêmico.

Engenheiros, analistas e executivos indianos têm papel de liderança em empresas de tecnologia, bancos e startups nos Emirados. Muitos atuam em áreas estratégicas como inteligência artificial, blockchain, engenharia de software e finanças internacionais. A comunidade profissional indiana é hoje uma das mais qualificadas da região, fortalecendo os laços econômicos e tecnológicos entre a Índia e o mundo árabe.

Os estrangeiros compõem a maior parte da força de trabalho dos Emirados Árabes Unidos, e os indianos representam o maior grupo nacional dentro desse contingente. Estimativas amplamente aceitas indicam que cerca de 35% a 40% dos indianos nos EAU atuam em funções qualificadas ou de colarinho branco, incluindo engenharia, medicina, gestão, tecnologia e educação.

Diferentemente de outros fluxos migratórios temporários, parte da comunidade indiana está presente nos Emirados há várias gerações, especialmente em centros comerciais como Dubai e Sharjah, criando uma base econômica e social estável.

Empreendedores indianos fundaram e expandiram alguns dos maiores grupos privados dos Emirados, muitos deles com alcance regional ou global. Entre os mais relevantes estão:
Lulu Group International — varejo e hipermercados
Landmark Group — varejo, moda e hospitalidade
Jashanmal Group — comércio e bens de consumo
Ajmal Perfumes — perfumaria
Jumbo Group — eletrônicos e serviços
Choithram’s — supermercados
Varkey Group — educação e serviços
Joyalukkas — joalherias
Aster DM Healthcare — saúde
Esses grupos empregam dezenas de milhares de pessoas e são pilares do varejo, da saúde, da educação e dos serviços nos Emirados.

Dubai abriga um número significativo de bilionários e grandes empresários indianos, entre os mais conhecidos:
Micky Jagtiani — Landmark Group
M. A. Yusuff Ali — LuLu Group
Ravi Pillai — RP Group
Sunny Varkey — GEMS Education
Joy Alukkas — Joyalukkas
Além deles, diversos milionários e CEOs indianos lideram grupos relevantes nos setores de logística, saúde, construção, mídia e comércio.

Ilustração simbólica representando a abertura dos Emirados Árabes Unidos para profissionais estrangeiros e talentos internacionais
Os Emirados Árabes Unidos consolidaram-se como um polo global que atrai talentos de diversas nacionalidades e investidores internacionais, impulsionando inovação, crescimento econômico e diversidade cultural na região

A contribuição indiana vai além do setor privado tradicional. Gulf Medical University, fundada por Thumbay Moideen, tornou-se uma das principais instituições médicas privadas do país, com estudantes de mais de 60 países.
Grupos como GEMS Education transformaram os Emirados em um hub educacional internacional, atendendo comunidades expatriadas diversas.
Na área bancária e institucional, executivos indianos também ocupam cargos de destaque, refletindo a integração da diáspora aos níveis mais altos da economia emiradense.

A Jebel Ali Free Zone (JAFZA) é um dos maiores polos logísticos do mundo. Desde os anos 1990:
—Centenas de empresas indianas operam na zona franca
— Os indianos representam uma parcela significativa da força de trabalho
— A presença empresarial indiana foi decisiva para o sucesso do modelo de zona livre
— A JAFZA consolidou-se como um ponto estratégico para comércio global, com forte participação indiana em logística, transporte marítimo e comércio internacional.

O impacto da comunidade indiana nos Emirados Árabes Unidos vai muito além das fronteiras do Golfo. Todos os anos, bilhões de dólares são enviados de volta à Índia na forma de remessas, tornando os Emirados uma das principais fontes de recursos externos para a economia indiana.

De acordo com dados do Banco Mundial, a Índia recebe mais de US$ 20 bilhões anuais apenas dos Emirados Árabes Unidos, valor que representa uma parcela significativa do total global de remessas recebidas pelo país. Esses fluxos financeiros desempenham um papel crucial no equilíbrio das contas externas, ajudando a compensar déficits comerciais e a estabilizar a economia nacional.

No plano social, as remessas sustentam milhões de famílias, financiando despesas essenciais como educação, saúde, habitação e pequenos negócios. Em estados como Kerala, Goa e Andhra Pradesh, esse dinheiro tornou-se um pilar da renda doméstica, influenciando padrões de consumo, investimento e mobilidade social. Em Kerala, por exemplo, as remessas estão diretamente associadas à melhoria de indicadores sociais e ao crescimento do setor de serviços.

Além do impacto econômico, as transferências financeiras possuem um forte componente emocional e cultural. Elas mantêm um vínculo constante entre quem migrou e quem permaneceu na Índia, reforçando responsabilidades familiares, tradições e identidades regionais. Dessa forma, as remessas não apenas movimentam a economia, mas também preservam laços humanos e culturais, fortalecendo a ponte histórica entre a Índia e os Emirados Árabes Unidos.

Gráfico de linha mostrando a evolução das remessas financeiras enviadas dos Emirados Árabes Unidos para a Índia ao longo dos anos, em bilhões de dólares americanos
Gráfico apresenta a evolução das remessas enviadas dos Emirados Árabes Unidos para a Índia ao longo dos anos, destacando o papel da diáspora indiana na economia indiana

A presença indiana nos Emirados Árabes Unidos vai muito além do trabalho e da economia. Ao longo das décadas, ela passou a moldar o cotidiano, o estilo de vida urbano e a paisagem cultural do país, especialmente em cidades como Dubai, Sharjah e Abu Dhabi.

Na gastronomia, a influência é imediata e visível. Restaurantes que servem samosas, biryani, chai, dosas e curries regionais fazem parte da rotina local, frequentados não apenas por indianos, mas também por árabes, europeus e turistas. Pratos indianos tornaram-se parte integrante da cultura alimentar urbana dos Emirados.

No campo social e religioso, festivais indianos ganharam dimensão pública. Diwali é amplamente celebrado, com centros comerciais decorados, eventos comunitários e espetáculos de luz. Onam, tradicional de Kerala, reúne milhares de pessoas em celebrações com danças, música e refeições coletivas. Outros festivais como Holi, Navratri também são comemorados regularmente por associações culturais e templos.

Além das festividades religiosas, eventos culturais e artísticos indianos tornaram-se parte do calendário dos Emirados, incluindo:
— Grandes concertos de música indiana (clássica e popular)
— Premiações e shows do cinema indiano
— Feiras literárias, exposições e eventos ligados ao Dia Internacional do Yoga
— Programas escolares e comunitários dedicados à cultura e às línguas indianas

Essas manifestações reforçam a identidade da diáspora e promovem intercâmbio cultural com a sociedade local. Assim, os Emirados tornaram-se, na prática, uma extensão cultural da Índia — não como réplica, mas como uma versão moderna, cosmopolita e globalizada, onde tradições indianas convivem harmoniosamente com outras culturas em um ambiente internacional.

A Grande Mesquita do Sultão Qaboos, em Omã, é uma obra-prima da arquitetura islâmica moderna e um dos marcos mais visitados do país
A Grande Mesquita do Sultão Qaboos em Mascate, Omã, com sua imponente cúpula e minaretes

O intercâmbio entre a Índia e os Emirados Árabes Unidos não se limita à migração laboral. O turismo tornou-se um dos pilares mais visíveis dessa relação contemporânea, funcionando também como um importante instrumento de soft power entre os dois países.

Dubai figura entre os destinos internacionais mais visitados por indianos, recebendo mais de 2 milhões de turistas da Índia por ano. A combinação de facilidade de visto, curta distância aérea, ampla conectividade de voos e uma oferta diversificada — que vai de compras e entretenimento a eventos culturais e esportivos — torna os Emirados especialmente atraentes. Para muitos indianos, Dubai representa um primeiro contato com o turismo internacional, reforçando laços afetivos e simbólicos com o país.

Além do turismo de lazer, os Emirados também atraem visitantes indianos para eventos corporativos, exposições internacionais, feiras comerciais e conferências, consolidando-se como um hub regional de negócios e inovação.
O fluxo, no entanto, é bidirecional. Um número crescente de residentes dos Emirados — incluindo cidadãos locais e expatriados — visita a Índia em busca de turismo médico, retiros espirituais, bem-estar e experiências gastronômicas. Hospitais indianos tornaram-se referência internacional em áreas como cardiologia, ortopedia e tratamentos especializados, enquanto destinos como Kerala, Rishikesh, Varanasi e Goa atraem visitantes interessados em saúde, espiritualidade e cultura.

Esse intercâmbio turístico vai além do impacto econômico direto. Ele fortalece a imagem internacional de ambos os países, amplia o entendimento cultural mútuo e aprofunda relações interpessoais. Ao promover viagens, experiências e narrativas positivas, Índia e Emirados utilizam o turismo como uma forma eficaz de soft power, reforçando uma parceria que combina proximidade histórica, cooperação econômica e afinidade cultural contínua.

Família indiana aproveitando um dia de compras e lazer no famoso Dubai Mall, um dos maiores centros comerciais do mundo
Os indianos lideram a lista do maior número de turistas internacionais que visitam os Emirados Árabes Unidos, refletindo os fortes laços econômicos, culturais e históricos entre a Índia e o país do Golfo

A presença religiosa hindu nos Emirados cresceu de forma visível nas últimas décadas:
O Templo Hindu de Jebel Ali, em Dubai, foi inaugurado em 2022, atendendo uma grande comunidade multicultural.
Em 2024, foi inaugurado o BAPS Hindu Mandir em Abu Dhabi, o primeiro templo hindu tradicional de pedra no Oriente Médio, construído em terreno doado pelo governo emiradense.
Esses templos são marcos históricos e símbolos de tolerância religiosa institucionalizada nos Emirados.

Vista do BAPS Hindu Mandir em Abu Dhabi, primeiro templo hindu tradicional construído nos Emirados Árabes Unidos
O BAPS Hindu Mandir, localizado em Abu Dhabi, é o primeiro templo hindu tradicional dos Emirados Árabes Unidos e simboliza convivência cultural e diálogo inter-religioso na região

Em 2022, Índia e Emirados Árabes Unidos assinaram o Acordo de Parceria Econômica Abrangente (CEPA), um acordo de livre comércio que:
Reduziu ou eliminou tarifas sobre milhares de produtos
Facilitou investimentos bilaterais
Aumentou o comércio bilateral para mais de US$ 80 bilhões anuais, com metas de crescimento adicional
O acordo consolidou os Emirados como principal parceiro comercial da Índia no mundo árabe.

O Burj Al Arab, símbolo do luxo e da arquitetura moderna de Dubai, destaca-se como um dos hotéis mais famosos do mundo
O icônico hotel Burj Al Arab em Dubai, com sua forma de vela e vista para o Golfo Pérsico

As relações entre árabes e indianos remontam a mais de dois mil anos, impulsionadas pelo comércio no Oceano Índico. Mercadores árabes visitavam regularmente portos da costa indiana, especialmente no oeste e sul do subcontinente.
Esses contatos foram fundamentais para a difusão do sistema numérico indiano, da astronomia e de textos matemáticos para o mundo árabe — conhecimento que mais tarde chegaria à Europa medieval por meio de estudiosos árabes.

Abaixo está uma bela canção árabe mesclada com a cultura indiana.

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Os indianos formam a maior comunidade expatriada dos Emirados Árabes Unidos. Estimativas amplamente citadas por fontes governamentais e internacionais situam essa população entre 3,3 e 3,6 milhões de pessoas, representando cerca de um terço da população total do país. Trata-se também de uma das maiores diásporas indianas concentradas em um único país no mundo..

A primeira escola indiana em Dubai foi fundada em 1961, uma década antes da criação dos Emirados Árabes Unidos em 1971. Hoje, existem dezenas de escolas indianas nos Emirados, muitas afiliadas aos currículos CBSE e ICSE, atendendo centenas de milhares de estudantes. Isso demonstra que a comunidade indiana já estava estabelecida e organizada muito antes do boom do petróleo

Mesmo após a independência da Índia em 1947, empresas e comerciantes nos principais xeicados do atual território dos Emirados Árabes Unidos — especialmente Dubai e Abu Dhabi — continuaram a utilizar a rúpia indiana como meio de pagamento amplamente aceito. Esse uso reflete a forte integração comercial e financeira entre a Índia e o Golfo, construída ao longo de décadas de intercâmbio mercantil.

Em 1959, o governo indiano introduziu a rúpia do Golfo, uma moeda criada especificamente para circulação fora do território indiano, mantendo paridade inicial com a rúpia indiana. Ela passou a ser utilizada nos Estados do Golfo que hoje formam os Emirados Árabes Unidos, além de Kuwait, Qatar, Omã e Bahrein, facilitando transações comerciais e financeiras em toda a região.

Até 1966, a rúpia do Golfo desempenhou um papel central no comércio regional, servindo como um instrumento monetário comum em um período anterior à consolidação das moedas nacionais locais. Esse episódio evidencia o grau de confiança econômica e interdependência histórica entre a Índia e o Golfo, muito antes da formação dos Estados modernos e da economia contemporânea baseada no petróleo.

Cédula da rupia indiana impressa entre 1942 e 1949, período do final do domínio britânico e da transição para a independência da Índia
Rupia indiana impressa entre 1942 e 1949, representando um período de transição histórica que antecedeu e acompanhou a independência da Índia em 1947

O cinema indiano goza de enorme popularidade nos Emirados Árabes Unidos e ocupa um lugar de destaque no cenário de entretenimento do país. Produções em hindi, malaiala, tâmil e télugo são exibidas regularmente nas principais redes de cinema, frequentemente com sessões lotadas desde a estreia. Em cidades como Dubai, Abu Dhabi e Sharjah, lançamentos indianos recebem atenção comparável à de grandes produções internacionais.

Os Emirados representam um mercado internacional estratégico para a indústria cinematográfica indiana, contribuindo de forma significativa para a bilheteria global. Para muitos filmes, o desempenho nos EAU é um indicador-chave de sucesso fora da Índia, impulsionado pela forte diáspora indiana e pelo interesse crescente de públicos de outras nacionalidades.

Produções épicas e de grande escala tiveram impacto especial no país. Filmes como Baahubali 2: The Conclusion , Jawan, KGF-2 e RRR foram amplamente assistidos nos Emirados, alcançando grande sucesso de público e reforçando a presença do cinema indiano no mercado local.

Além da bilheteria, os Emirados funcionam como palco para estreias globais, eventos promocionais e encontros com artistas, consolidando o cinema indiano como uma poderosa ferramenta de soft power cultural e fortalecendo os laços culturais entre a Índia e o Golfo.

Cartaz ou cena do filme Jawan, sucesso de bilheteria de Bollywood, que arrecadou mais de 16 milhões de dólares nos Emirados Árabes Unidos
O filme Jawan, de Bollywood, foi um grande sucesso de bilheteria e arrecadou mais de US$ 16 milhões nos Emirados Árabes Unidos

O UPI (Unified Payments Interface) da Índia já pode ser utilizado nos Emirados Árabes Unidos por turistas e residentes indianos, com aceitação crescente em estabelecimentos selecionados, especialmente em Dubai. Grandes redes como Lulu Hypermarket e Dubai Duty Free aceitam pagamentos via QR Code, graças a parcerias entre a NPCI International e redes de pagamento locais. O UPI, na Índia, funciona de forma semelhante ao PIX no Brasil — um sistema de pagamentos instantâneos que permite transferências rápidas, seguras e sem dinheiro físico, diretamente entre contas bancárias.

Além dos pagamentos a comerciantes, indianos não residentes (NRIs) que vivem nos Emirados podem usar o UPI para transferências pessoa-a-pessoa (P2P), desde que possuam contas NRE ou NRO em bancos indianos participantes e tenham seus números de celular dos Emirados registrados e validados. O sistema permanece vinculado às contas bancárias na Índia, funcionando como uma extensão digital do ecossistema financeiro indiano.

A presença do UPI nos Emirados facilita o turismo, reduz o uso de dinheiro em espécie e simboliza um novo capítulo na integração econômica e tecnológica entre a Índia e o Golfo, agora na era dos pagamentos digitais.

A forte presença indiana nos Emirados Árabes Unidos é resultado de uma combinação de laços históricos profundos, oportunidades econômicas estratégicas e afinidades culturais construídas ao longo de séculos de interação entre a Índia e a região do Golfo. Dentro desse contexto, Kerala ocupa um papel central, destacando-se como um dos principais berços da diáspora indiana e como elo humano contínuo entre as duas regiões.

Ao longo das décadas, indianos contribuíram de forma decisiva para setores essenciais dos Emirados — da construção e do comércio à educação, saúde e grandes corporações — ajudando a moldar a economia e a sociedade do país moderno. Mais do que mão de obra, essa comunidade tornou-se parte integrante do desenvolvimento dos Emirados, exemplificando como migração, cooperação e intercâmbio cultural podem gerar prosperidade compartilhada e fortalecer relações entre nações.

Perguntas Frequentes

Quantos indianos vivem atualmente nos Emirados Árabes Unidos?

Estima-se que mais de 3,5 milhões de indianos vivam nos Emirados, representando cerca de 30% da população total do país — a maior comunidade estrangeira da região.

Por que a maioria dos indianos nos Emirados vem de Kerala?

Kerala tem uma longa tradição de migração e alto nível de educação. Desde os anos 1970, muitos keralitas buscaram oportunidades no Golfo, enviando remessas que sustentam milhões de famílias.

Quais profissões os indianos mais exercem nos Emirados Árabes?

Os indianos estão em todos os setores: construção, saúde, educação, tecnologia e finanças. De operários a CEOs, sua presença é essencial para a economia emiradense.

Os indianos podem se tornar cidadãos dos Emirados Árabes Unidos?

Não. Mesmo após décadas de residência, os expatriados indianos não recebem cidadania. Porém, novas políticas permitem vistos de longo prazo para investidores e profissionais qualificados.

Que impacto os indianos têm na economia da Índia?

Os trabalhadores indianos nos Emirados enviam bilhões de dólares em remessas todos os anos, ajudando a fortalecer a economia indiana e sustentando famílias em estados como Kerala e Andhra Pradesh.

Que línguas indianas são mais faladas nos Emirados Árabes Unidos?

O hindi e o malaiala são amplamente falados, seguidos por tâmil, télugo e punjabi. Em muitas cidades, é comum ouvir essas línguas em mercados, escolas e até em rádios locais.

É fácil para indianos conseguirem visto de trabalho nos Emirados Árabes Unidos?

Sim. Os Emirados mantêm acordos trabalhistas com a Índia e possuem um sistema estruturado de vistos de trabalho patrocinados por empregadores, especialmente nos setores de serviços, construção e tecnologia.

Os salários nos Emirados Árabes Unidos são mais altos do que na Índia?

Em muitos setores, sim. Além de salários mais elevados, a ausência de imposto de renda pessoal torna os Emirados financeiramente atraentes para profissionais indianos.

Os Emirados Árabes Unidos são seguros para expatriados indianos?

Sim. Os Emirados Árabes Unidos estão entre os países mais seguros do mundo, com baixos índices de criminalidade e leis rigorosas que garantem estabilidade social.

Indianos podem praticar livremente sua religião nos Emirados Árabes Unidos?

Sim. Os Emirados permitem a prática religiosa de diferentes comunidades, incluindo hindus, sikhs e cristãos, com templos e centros religiosos oficialmente reconhecidos.

Como os indianos enviam dinheiro dos Emirados para a Índia?

As remessas são enviadas principalmente por bancos, casas de câmbio e plataformas digitais, de forma rápida e segura, fazendo dos Emirados um dos maiores países de origem de remessas para a Índia.