Chhath Puja: A Celebração da Deus Solar e da Gratidão à Natureza

Frutas frescas dispostas nas margens do rio durante o festival Chhath Pooja, sob a luz suave do nascer do sol

A Índia é uma terra onde o Sol, os rios e as montanhas não são vistos apenas como elementos da paisagem, mas como forças vivas e sagradas, responsáveis por sustentar o equilíbrio do mundo. Desde os tempos mais antigos, a relação entre o ser humano e a natureza foi compreendida como uma relação de reverência, gratidão e responsabilidade. É nesse contexto espiritual profundo que surge o Chhath Puja, um dos rituais solares mais antigos e austeros do subcontinente indiano.

Celebrado principalmente nos estados de Bihar, Jharkhand e Uttar Pradesh, além de regiões do Nepal, o Chhath Puja é dedicado ao deus Sol (Surya) — fonte primordial de vida, energia e ordem cósmica — e à Chhathi Maiya, a divindade materna associada à fertilidade, à proteção dos filhos e à continuidade da vida. Diferente de muitos festivais marcados por templos e ídolos, o Chhath é realizado diretamente na natureza, às margens de rios, lagos e reservatórios, reforçando a ideia de que o divino se manifesta no próprio mundo natural.

Mais do que uma celebração festiva, o Chhath Puja é um voto de disciplina, pureza e devoção extrema. Os devotos observam jejuns rigorosos, praticam autocontrole físico e mental, oferecem água ao Sol nascente e poente e expressam gratidão pela saúde, pela prosperidade e pela proteção da família. Cada gesto — do jejum à imersão nas águas — carrega um significado espiritual profundo, transmitido de geração em geração.

Neste artigo, vamos explorar as origens do Chhath Puja, seus rituais e simbolismos, o papel central do culto solar e por que esse festival continua sendo uma das expressões mais autênticas de fé, simplicidade e conexão com a natureza na tradição indiana.

Chhath Puja é celebrado todos os anos no mês de Kartika, de acordo com o calendário lunissolar hindu, geralmente entre outubro e novembro. O festival ocorre seis dias após Diwali, no sexto dia da quinzena lunar crescente (Shukla Paksha), e se estende por quatro dias consecutivos, cada um com rituais específicos e rigorosamente observados.

Por estar ligado ao calendário lunar, a data do Chhath Puja varia a cada ano no calendário gregoriano, ao contrário de festivais solares como Makar Sankranti. Ainda assim, sua posição dentro do ciclo ritual hindu é estável e bem definida, sempre associada ao período pós-monsão, quando os rios estão cheios e a natureza renovada — um contexto considerado ideal para a adoração do Sol.

O momento mais significativo do festival ocorre nos dois últimos dias, quando os devotos realizam oferendas ao Sol poente (Sandhya Arghya) e, no dia seguinte, ao Sol nascente (Usha Arghya). Esses rituais, realizados às margens de rios, lagos e reservatórios de água, marcam simbolicamente o encerramento do voto (vrata) e são considerados o ponto culminante espiritual do Chhath Puja.

Em 2025, o Chhath Puja será celebrado entre sábado, 25 de outubro, e terça-feira, 28 de outubro, tendo como momentos centrais a oferenda ao Sol poente (Sandhya Arghya) na segunda-feira, 27 de outubro, e a oferenda ao Sol nascente (Usha Arghya) na terça-feira, 28 de outubro, que marca o encerramento do voto.

Já em 2026, o festival ocorrerá de sexta-feira, 13 de novembro, a segunda-feira, 16 de novembro, com o dia mais sagrado — Surya Shashthi — observado no domingo, 15 de novembro.

छठ पूजा (Chhath Puja) é uma expressão que combina linguagem ritual, calendário lunar e devoção solar, refletindo uma das formas mais antigas de culto ao Sol no norte da Índia. Diferente de termos puramente sânscritos compostos, Chhath Puja nasce do uso vernacular antigo, fortemente influenciado pelo sânscrito, pelo prácrito e pelas línguas regionais do vale do Ganges.

O termo छठ (Chhath) deriva de षष्ठी (Shashthi), palavra sânscrita que significa literalmente “sexto”. No contexto ritual, Chhath refere-se ao sexto dia do mês lunar de Kartika, momento específico considerado auspicioso para a adoração do Sol. Nos calendários hindus tradicionais, os dias lunares (tithis) possuem qualidades espirituais próprias, e a Shashthi está associada à proteção, à fertilidade e ao bem-estar dos filhos — atributos diretamente ligados à deusa Chhathi Maiya.

पूजा (Puja) é um termo sânscrito amplamente difundido que significa adoração, veneração ou ato ritual consciente. Puja não se limita a oferendas materiais; envolve disciplina, pureza, intenção correta (bhāva) e alinhamento entre ação externa e devoção interior.

Quando unidos, Chhath Puja pode ser compreendido como a adoração realizada no sexto dia lunar, dedicada ao deus Sol (Surya) e à sua energia geradora, personificada como Chhathi Maiya. Diferente de muitas celebrações baseadas em templos, o nome do festival já indica sua estrutura ritual precisa, ancorada no tempo lunar e na observação direta da natureza.

Do ponto de vista simbólico, o “sexto dia” marca um ponto de maturação dentro do ciclo lunar, momento em que a energia vital é considerada estável e propícia à gratidão e ao pedido de proteção. Por isso, o Chhath Puja enfatiza oferendas diretas ao Sol nascente e poente, reconhecendo-o como regulador do tempo, da saúde, da colheita e da vida.

Assim, Chhath Puja não é apenas o nome de um festival, mas a expressão condensada de uma cosmovisão antiga, na qual tempo, natureza e disciplina espiritual se alinham. Seu significado linguístico reflete exatamente o que o ritual pratica: simplicidade extrema, rigor, clareza simbólica e uma relação direta entre o ser humano e as forças que sustentam a existência.

Um templo antigo em Bihar, símbolo da rica tradição arquitetônica e espiritual da Índia antiga
Templo antigo em Bihar, com arquitetura histórica e esculturas detalhadas

A origem do Chhath Puja não está associada a um único evento fundador, a um templo específico ou a um decreto régio. Assim como outros rituais solares antigos da Índia, ele se forma gradualmente a partir da observação astronômica, do culto védico ao Sol e de práticas devocionais preservadas pelas comunidades do vale do Ganges. Trata-se de um ritual cumulativo e orgânico, cuja legitimidade não vem de uma instituição central, mas da repetição disciplinada e da fidelidade ao tempo cósmico.

O núcleo do Chhath Puja é a adoração direta do Sol nascente e poente, prática que remonta às camadas mais antigas da religiosidade indiana. Desde os períodos védicos, o Sol é compreendido como regulador do rta — a ordem cósmica que governa o tempo, as estações, a moral e a vida. Diferente de rituais templários posteriores, o Chhath preserva essa forma arcaica de devoção: realizado ao ar livre, junto à água, sem ídolos ou intermediários sacerdotais.

Embora o Chhath não seja descrito como um festival formal nos Vedas, os hinos do Rigveda dedicados a Surya e Savitr estabelecem seu fundamento conceitual: o Sol como fonte de energia vital, saúde, fertilidade e continuidade da vida. A prática de oferecer arghya (água ritual) ao Sol — central no Chhath Puja — já aparece em contextos védicos como gesto de reconhecimento, alinhamento e gratidão à ordem cósmica.

Sita realizando o ritual do Chhath Puja às margens do rio Narayani (Gandaki)
Segundo a tradição, Sita teria realizado o Chhath Puja às margens do rio Narayani (Gandaki) durante seu período no ashram de Valmiki

No Ramayana, o Chhath Puja aparece associado diretamente à figura de Sita. Após o retorno de Rama e Sita a Ayodhya e a celebração de Diwali, o sexto dia marca o início do Ramarajya — o estabelecimento do governo justo. Segundo a tradição, nesse dia Rama e Sita observam jejum, e Sita realiza a adoração a Surya no dia de Surya Shashthi, prática identificada como Chhath Puja.

Essa devoção solar de Sita está ligada simbolicamente à fertilidade, à continuidade da linhagem e à proteção dos filhos. A tradição sustenta que, após esse voto, Sita foi abençoada com o nascimento de Lava e Kusha, seus futuros filhos gêmeos, reforçando o vínculo entre o Chhath Puja, a maternidade consciente e a bênção divina — temas que permanecem centrais para o significado do festival até hoje.

Há ainda uma tradição viva em Champaran (Bihar) e na província de Madhesh (Nepal) segundo a qual, após deixar Ayodhya, Sita teria vivido no ashram de Valmiki (ashram: retiro espiritual onde sábios vivem, ensinam e praticam disciplina religiosa), às margens do rio Narayani (Gandaki), na atual região de Chitwan. Durante esse período, ela teria celebrado o Chhath Mahaparva (Mahaparva: grande observância ritual de profundo significado religioso), o que explica a forte presença e antiguidade do festival também no território nepalês.

Karna, filho de Surya e Kunti, associado à devoção solar e ao destino
A origem de Karna, filho de Surya e Kunti, é tradicionalmente associada à devoção solar de Kunti

No Mahabharata, o Chhath Puja aparece associado a momentos decisivos de provação e busca por proteção divina. Kunti, mãe dos Pandavas, é uma das figuras centrais dessas narrativas. Após escaparem do episódio da Lakshagriha o palácio incendiado construído para assassinar os Pandavas por meio de uma conspiração —, Kunti teria realizado o Chhath Puja como ato de gratidão ao deus Sol (Surya) e como pedido de estabilidade, segurança e continuidade para seus filhos.

A própria origem de Karna, filho de Surya e de Kunti, é frequentemente relacionada à profunda devoção solar de Kunti, reforçando o vínculo simbólico entre o Sol, a verdade, a proteção divina e o destino na tradição épica indiana.

A tradição também associa o Chhath Puja a Draupadi, esposa comum dos cinco Pandavas e uma das figuras femininas centrais do Mahabharata, que teria observado o voto para pedir força, proteção e justiça durante o período que antecede a guerra de Kurukshetra, o grande conflito épico que decide o destino dos reinos. Em Nagdi, uma localidade próxima à cidade de Ranchi, atual capital do estado de Jharkhand, acredita-se que Draupadi tenha realizado o ritual junto a uma fonte natural, e não às margens de um rio. Até hoje, o Chhath Puja é celebrado exatamente nesse local, preservando a memória do episódio — um exemplo claro de continuidade ritual profundamente ligada à geografia sagrada e à tradição local.

Essas narrativas não apresentam o Chhath como uma celebração espetacular, mas como um voto silencioso, realizado em momentos críticos, reforçando seu caráter de disciplina, resistência e confiança na ordem cósmica.

Draupadi realizando o Chhath Puja em devoção pelo destino dos Pandavas
Draupadi realizando o Chhath Puja em devoção pelo destino dos Pandavas

Nos Puranas, especialmente no Brahma Vaivarta Purana, aparece a figura de Chhathi Maiya, a divindade materna venerada durante o Chhath Puja. Ela é associada à Shasthi (o sexto dia lunar), tradicionalmente ligada à proteção das crianças e à fertilidade.

Uma narrativa amplamente difundida conta a história do rei Priyavrata, filho de Manu Svayambhu — o primeiro legislador e ancestral da humanidade na tradição indiana. Após o nascimento de um filho natimorto, a deusa Shashthi se manifesta e revela-se como Chhathi Maiya, descrita como a sexta forma da Prakriti (o princípio primordial da natureza, fonte de toda a criação e energia vital), concedendo vida à criança. Esse episódio consolida a associação entre o Chhath Puja, a proteção infantil e a bênção concedida aos pais, ajudando a explicar por que o festival é especialmente observado por mulheres, que realizam o voto em nome da saúde, da continuidade da linhagem e do bem-estar da família.

Outra tradição relaciona o Chhath ao nascimento de Surya como filho de Aditi no sexto dia do mês de Kartika, motivo pelo qual Surya é chamado Aditya. Essa associação reforça o caráter solar do festival e a sacralidade do mês de Kartika.

Deusa Shashthi revelando-se como Chhathi Maiya e concedendo vida ao filho do rei Priyavrata
Deusa Shashthi revelando-se como Chhathi Maiya e concedendo vida ao filho do rei Priyavrata

Ao longo da história do norte da Índia, o Chhath Puja não se consolidou como um festival régio no sentido clássico — associado a grandes templos estatais ou a cultos patrocinados diretamente por imperadores —, mas como uma tradição pública profundamente enraizada na vida social, agrícola e simbólica das comunidades do vale do Ganges. Ainda assim, sua prática contínua revela uma forma distinta de legitimidade: não a do poder centralizado, mas a da ordem cósmica reconhecida e respeitada por governantes, comunidades rurais e centros urbanos.

Chhath Puja na Índia
Nascer do sol visto da margem do rio ganges, refletindo nas águas calmas e criando uma paisagem serena

Ao longo dos séculos, o Chhath Puja manteve uma forma surpreendentemente estável, especialmente em Bihar, leste de Uttar Pradesh, Jharkhand, Nepal e regiões associadas ao curso do Ganges. Em locais como Munger, o festival é profundamente ligado à tradição de Sita Charan (ou Sita Manpatthar) — uma rocha no meio do rio Ganges onde se acredita que Sita tenha celebrado o Chhath. O Templo Sitacharan, nesse local, permanece até hoje como um importante centro de devoção popular.

Essa continuidade explica por que o Chhath Puja é frequentemente descrito como um dos rituais solares mais antigos e preservados da Índia. Sua força não reside em um único texto canônico, mas na convergência entre referências épicas, tradição purânica, observação astronômica e prática ritual viva, transmitida de geração em geração.

Durante o Império Maurya e os reinos que o sucederam, o conceito de dharma como ordem universal reforçou a importância do Sol como símbolo de estabilidade, verdade e vigilância moral. Embora o Estado Maurya não tenha promovido um culto solar institucionalizado nos moldes do Chhath, a centralidade do Sol como testemunha cósmica permeava a administração, os juramentos e a organização do tempo.

Essa percepção fortaleceu a legitimidade de rituais solares praticados fora dos templos, especialmente nas margens de rios — espaços que não pertenciam exclusivamente ao Estado nem ao sacerdócio, mas à comunidade como um todo.

Leões de Ashoka em Sarnath, escultura do período Maurya associada ao dharma
Os Leões de Ashoka em Sarnath, esculpidos durante o Império Maurya no século III a.C., em uma fotografia de 1911; o conjunto simboliza o dharma, a ordem moral e os princípios éticos promovidos pelo imperador Ashoka

Durante o período Gupta , quando a astronomia, a matemática e a iconografia religiosa floresceram, o culto ao Sol ganhou expressão monumental em templos e imagens régias. No entanto, o Chhath Puja seguiu um caminho diferente: permaneceu deliberadamente não monumental, sem templos dedicados exclusivamente ao ritual, preservando sua forma arcaica e direta.

Essa ausência de monumentalização não indica marginalidade, mas sim fidelidade a uma lógica ritual antiga, na qual a legitimidade do culto deriva da observação do tempo, da água e do Sol, e não da mediação institucional. Governantes locais e elites regionais respeitavam e participavam indiretamente dessas práticas, reconhecendo-as como parte do tecido moral da sociedade.

Moedas do período Gupta com arqueiro de um lado e a deusa Lakshmi do outro
Moedas do período Gupta com arqueiro de um lado e a deusa Lakshmi do outro

Durante os períodos medievais, sob diferentes dinastias regionais do norte da Índia — incluindo governantes locais em Magadha, Mithila e Kosala —, o Chhath Puja manteve-se como um ritual popular de grande visibilidade pública. Crônicas regionais e tradições orais indicam que governantes frequentemente apoiavam a manutenção de ghats, reservatórios e margens fluviais, espaços essenciais para a realização do festival; em alguns casos, templos solares regionais medievais, como o Deo Surya Mandir, passaram a funcionar como pontos de convergência devocional, sem substituir o caráter aberto e fluvial do ritual.

Essa relação indireta entre poder político e ritual solar reforçou o caráter comunitário do Chhath: o Estado não o controlava, mas criava condições para sua continuidade, reconhecendo sua importância social e simbólica.

Deo Surya Mandir em Bihar em fotografia histórica de 1870
O Deo Surya Mandir, localizado em Bihar, em uma fotografia de 1870; templo solar medieval que se tornou um importante centro regional de devoção a Surya e referência para celebrações ligadas ao culto solar

Na era moderna e contemporânea, especialmente a partir do século XIX, o Chhath Puja tornou-se um marcador identitário central para as populações de Bihar e regiões vizinhas. Mesmo sem ter origem como um festival régio clássico, ele passou a receber reconhecimento institucional, com a preservação de espaços rituais, feriados oficiais e participação pública de líderes políticos.

Essa trajetória singular faz do Chhath Puja um exemplo raro de continuidade ritual sem centralização estatal, em que a autoridade do festival não vem de reis ou impérios, mas da constância da prática, da disciplina dos devotos e da relação direta com o Sol e a natureza.

O Chhath Puja se desenrola ao longo de quatro dias consecutivos, organizados com precisão ritual e um grau raro de disciplina espiritual. Cada etapa prepara o corpo, a mente e o espaço doméstico para um encontro direto com o Sol, sem intermediários, ídolos ou templos. O ritmo é progressivo: purificação, contenção, oferenda e renovação.

O festival começa com a purificação física e espiritual. Ao amanhecer, os devotos tomam banho em um rio sagrado — tradicionalmente o Ganges, mas também em afluentes, lagos ou reservatórios locais — e realizam uma limpeza completa da casa. Esse gesto inicial estabelece a base do voto (vrata): pureza externa como reflexo de intenção interior.

Após o banho ritual, prepara-se uma refeição simples e estritamente vegetariana, geralmente composta por arroz, abóbora e lentilhas, cozidos em utensílios limpos (muitas vezes de barro) e sem temperos considerados estimulantes. A refeição é consumida apenas uma vez naquele dia. A partir daí, inicia-se o controle alimentar e o compromisso com a austeridade, marcando a transição do cotidiano para o tempo sagrado.

O segundo dia aprofunda a disciplina. Os devotos observam um jejum rigoroso durante todo o dia, dedicando-se à oração, ao silêncio interior e à preparação das oferendas. Ao pôr do sol, o jejum é quebrado com uma refeição ritual específica: kheer (arroz doce preparado com leite e açúcar), frutas e pão de trigo.

Esse alimento é primeiro oferecido ao Sol e, somente depois, consumido pelos devotos e familiares. A partir desse momento, inicia-se a fase mais exigente do Chhath: um jejum contínuo de aproximadamente 36 horas, sem ingestão de comida ou água. Esse sacrifício extremo não é visto como penitência, mas como um ato de entrega consciente, disciplina e amor devocional, realizado em nome da saúde, da prosperidade e da proteção da família.

Tigela de kheer tradicional preparado durante o festival Chhath Pooja, decorado com amêndoas e açafrão
Tigela de kheer tradicional preparado durante o festival Chhath Pooja, decorado com amêndoas e açafrão

O terceiro dia é o coração visual e emocional do Chhath Puja. Vestidos com trajes tradicionais — frequentemente em tons de amarelo, laranja ou vermelho — os devotos se dirigem às margens dos rios carregando cestos de bambu cuidadosamente preparados. Neles, colocam frutas, cana-de-açúcar, doces tradicionais, coco, trigo e flores, especialmente o lótus.

Ao entardecer, quando o Sol se aproxima do horizonte, os devotos entram na água até a cintura e oferecem arghya (água ritual) ao Sol poente, acompanhada de cânticos devocionais transmitidos oralmente há gerações. O ambiente se transforma: o reflexo dourado do Sol na água, as vozes em uníssono e a concentração coletiva criam uma atmosfera de profunda solenidade. Esse momento simboliza gratidão pelo dia que se encerra, pelo ciclo da vida que continua e pela energia que sustenta o mundo.

Devotos levando cestas de frutas para o rio durante o Chhath Pooja, em um gesto de fé e gratidão ao deus Sol
Pessoas carregando cestas de frutas na cabeça a caminho das margens do rio durante o festival Chhath Pooja na Índia

Ainda antes do amanhecer, os devotos retornam às margens do rio para o momento final do festival. O Usha Arghya é dedicado ao Sol nascente, símbolo máximo de renovação, esperança e continuidade da vida. Com as oferendas nas mãos, os devotos aguardam em silêncio até que o primeiro raio de luz apareça no horizonte.

A oferenda ao Sol nascente encerra o voto com emoção intensa. Muitos choram, outros permanecem em profunda contemplação. Após o ritual, o jejum é finalmente quebrado com alimentos simples, geralmente frutas e pão de trigo, compartilhados com familiares e vizinhos. Esse gesto final marca não apenas o fim da austeridade, mas o início de um novo ciclo, purificado, fortalecido e alinhado com a ordem natural.

Mulheres em oração nas margens do rio, expressando devoção e fé durante o ritual sagrado
Mulheres orando na margem do rio durante um ritual religioso, com cestos de oferendas e vestes tradicionais coloridas

Embora homens e crianças também participem do Chhath Puja, as mulheres ocupam um papel central e insubstituível na condução do festival. Em muitas famílias, são elas que assumem o vrata (voto), observando o jejum rigoroso e conduzindo todos os rituais em nome da saúde, da prosperidade e da proteção da família. Esse compromisso não é imposto, mas assumido voluntariamente, como expressão de fé, responsabilidade e amor coletivo.

A imagem da mulher em silêncio, de pé nas águas frias ao entardecer, com o corpo imóvel e os braços erguidos em direção ao Sol poente, segurando o cesto de oferendas, tornou-se um dos símbolos mais marcantes do Chhath Puja. Trata-se de um gesto que exige resistência física, concentração mental e profunda entrega espiritual. Não há pressa, não há espetáculo — apenas presença, disciplina e devoção contínua.

Essas mulheres são chamadas de Vrati — aquelas que cumprem o voto. Na tradição popular, acredita-se que uma Vrati, ao manter pureza de intenção, palavra e ação durante os quatro dias do festival, se torna um canal da energia solar. Por isso, sua oração não é vista apenas como um pedido individual, mas como um ato que sustenta a harmonia do lar, a saúde dos filhos e o equilíbrio da comunidade.

Do ponto de vista social, o Chhath Puja também se destaca por reconhecer e valorizar a liderança espiritual feminina. Diferente de muitos rituais conduzidos por sacerdotes homens, o Chhath coloca as mulheres no centro da prática religiosa, sem intermediários. Elas organizam o espaço ritual, preparam as oferendas, entoam os cânticos tradicionais e conduzem o ritmo do festival, transmitindo esse conhecimento de geração em geração.

Há ainda uma dimensão profundamente simbólica nessa centralidade feminina. O culto a Chhathi Maiya, a deusa associada à proteção dos filhos e à fertilidade, reflete a visão de que a maternidade consciente e a disciplina espiritual são forças criadoras e estabilizadoras da vida. Assim, a Vrati não representa fragilidade, mas resiliência, constância e poder silencioso.

Em um plano mais amplo, o papel das mulheres no Chhath Puja desafia estereótipos simplistas sobre devoção e gênero. Ele revela uma espiritualidade em que a força não se manifesta pela autoridade formal, mas pela capacidade de sustentar, cuidar e perseverar. É essa presença feminina firme e silenciosa que dá ao Chhath Puja sua intensidade única — uma devoção que não pede, mas confia; não exige, mas oferece; e, ao fazê-lo, mantém viva uma das tradições mais antigas e profundas da Índia.

Devota em traje tradicional bihari segura um thali com oferendas enquanto realiza o sagrado ritual do Chhath Pooja
Mulher em traje tradicional de Bihar segurando um thali com oferendas durante o Chhath Pooja

Durante os dias do Chhath Puja, vilas, bairros e cidades inteiras se transformam em espaços vivos de memória sonora e devoção coletiva. A música não é um adorno do festival — ela é parte essencial do ritual. As canções conhecidas como Chhath Geet ecoam desde as casas até as margens dos rios, criando uma atmosfera contínua de oração cantada.

Transmitidas oralmente de geração em geração, essas músicas são entoadas principalmente em Bhojpuri e Maithili, línguas profundamente ligadas à região onde o Chhath floresceu. As letras narram histórias simples e poderosas: mulheres caminhando longas distâncias para cumprir seus votos, mães oferecendo o primeiro fruto da colheita ao Sol, famílias enfrentando dificuldades com fé silenciosa e perseverança. Não são canções de espetáculo, mas de experiência vivida, carregadas de emoção, humildade e esperança.

As cores também desempenham um papel simbólico importante. As ruas e entradas das casas são decoradas com rangolis feitos à mão, muitas vezes desenhados com farinha de arroz ou pigmentos naturais, representando prosperidade e acolhimento. Lamparinas de barro (diyas) iluminam os caminhos que levam aos rios, lagos e ghats, guiando os devotos antes do amanhecer e ao entardecer. A luz suave dessas chamas cria um contraste poético com o céu em transição, reforçando a ligação entre o humano e o cósmico.

Tudo isso acontece sem palcos, sem amplificadores, sem organização formal. A força do Chhath está justamente em sua tradição oral viva, mantida pela repetição, pela escuta e pela participação coletiva. Crianças aprendem observando, jovens cantam ao lado dos mais velhos, e cada voz acrescenta continuidade a uma herança que não depende de registros escritos para sobreviver.

Nesse entrelaçamento de canção, cor e gesto, o Chhath Puja revela uma de suas dimensões mais profundas: a de uma cultura que se preserva pela vivência compartilhada, onde a devoção é cantada, desenhada no chão, iluminada por pequenas chamas — e guardada, sobretudo, na memória das pessoas.

Decoração tradicional de pooja em casa, simbolizando pureza, devoção e boas energias
Decoração de pooja dentro de uma casa, com flores, lamparinas e ídolos cuidadosamente arranjados em um altar

O Chhath Puja é um dos raros festivais hindus em que não há templos, ídolos ou sacerdotes conduzindo os rituais. Toda a cerimônia é realizada diretamente pelos próprios devotos, geralmente à beira de rios, lagos ou reservatórios de água. Essa característica preserva uma forma arcaica e direta de espiritualidade, na qual a relação com o divino acontece sem intermediários, reforçando a ideia de simplicidade, igualdade e disciplina pessoal.

Chhath Puja é frequentemente citado como um dos festivais mais ecologicamente conscientes da Índia. As oferendas utilizam apenas materiais naturais e biodegradáveis, como frutas, cana-de-açúcar, folhas, flores, cestos de bambu e utensílios de barro. Não há uso de plástico, produtos sintéticos ou decoração artificial, o que reflete uma visão ancestral de harmonia entre devoção e natureza.

Abaixo, uma bela canção que retrata a atmosfera espiritual e emocional do Chhath Puja.

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As origens do Chhath Puja remontam às tradições védicas, com práticas de adoração direta ao Sol que podem ter mais de 5.000 anos. Diferente de muitos festivais que se estruturaram em torno de narrativas específicas, o Chhath preserva um culto solar primitivo, baseado na observação da natureza, do tempo e da energia vital.

O voto (vrata) do Chhath é considerado um dos mais exigentes da tradição hindu. Muitos devotos permanecem até 36 horas sem consumir água ou alimento, mantendo-se em constante estado de oração, concentração e autocontrole. Esse jejum não é visto como sofrimento, mas como um ato consciente de purificação, gratidão e entrega total à divindade solar.

Pesquisadores e estudiosos da saúde apontam que a exposição controlada ao Sol nascente e poente, combinada com jejum moderado e imersão em água, pode trazer benefícios ao equilíbrio físico e mental. Esses momentos do dia emitem radiações solares mais suaves, associadas à regulação do ritmo biológico, à produção hormonal e ao bem-estar geral — uma convergência notável entre tradição ancestral e observação científica moderna.

O Chhath Puja é muito mais do que um ritual religioso observado em datas específicas do calendário — ele é uma experiência espiritual profunda e transformadora. Ao acompanhar o nascer e o pôr do Sol, o devoto não apenas cumpre um voto, mas se reconecta conscientemente com a fonte primordial da vida, reconhecendo a energia que sustenta o corpo, o tempo e a própria existência.

Cada gesto do Chhath — o jejum rigoroso, a imersão nas águas, a oferenda silenciosa ao Sol — ensina uma lição de disciplina, gratidão e humildade. O festival lembra que a verdadeira devoção não depende de templos, imagens ou intermediários, mas de presença interior, intenção correta e respeito à ordem natural. É um retorno à espiritualidade essencial, onde o sagrado se manifesta diretamente na luz, na água e no ritmo do dia.

Entre o amanhecer e o entardecer, o Chhath revela uma verdade atemporal: a luz não habita apenas o céu, mas também o interior de cada ser humano. Ao saudar o Sol, o devoto reconhece essa centelha divina dentro de si — a força que inspira, cura, sustenta e orienta.

Assim, quando alguém se inclina diante do Sol durante o Chhath Puja, esse gesto vai além da reverência externa. Ele simboliza um encontro íntimo entre o humano e o cósmico, entre o tempo individual e o tempo universal. É isso que torna o Chhath Puja não apenas um festival, mas uma celebração da vida, da consciência e da alma — simples em forma, profunda em significado e eterna em sua mensagem.

Perguntas Frequentes

O que é o Chhath Puja?

O Chhath Puja é um dos festivais hindus mais antigos dedicados ao deus Sol (Surya) e à deusa Chhathi Maiya. Celebrado principalmente em Bihar, Jharkhand, Uttar Pradesh e no Nepal, ele expressa gratidão pela vida, saúde e prosperidade, através de jejuns rigorosos, oferendas e banhos rituais em rios sagrados.

Por que o festival Chhath é dedicado ao Sol?

O Sol é visto como a fonte suprema de energia e vitalidade. Ao adorá-lo, os devotos reconhecem sua importância para a vida na Terra e pedem bênçãos de força, saúde e equilíbrio. O ritual também simboliza a conexão entre o ser humano e a natureza.

Quem é Chhathi Maiya?

Chhathi Maiya é considerada a deusa protetora das crianças e símbolo da maternidade. Ela representa a energia feminina do Sol e é reverenciada como aquela que garante bem-estar, fertilidade e harmonia familiar.

Como é observado o jejum durante o Chhath Puja?

O jejum é extremamente rigoroso. Durante o segundo e o terceiro dia, muitos devotos passam 36 horas sem comer nem beber água. Essa prática é vista como um ato de purificação, disciplina espiritual e fé absoluta nos deuses solares.

Qual é o significado das oferendas feitas durante o pôr e o nascer do Sol?

As oferendas, conhecidas como Arghya, incluem frutas, cana-de-açúcar, arroz e flores colocadas em cestos de bambu. Elas simbolizam gratidão e humildade diante da natureza. O pôr do sol representa o término dos ciclos, enquanto o nascer do sol simboliza novos começos e esperança.

O Chhath Puja é celebrado apenas na Índia?

Não. Embora tenha origem em Bihar, o festival é amplamente celebrado em países com comunidades indianas e nepalesas, como Maurício, Fiji, Trinidad e Tobago, Reino Unido e Estados Unidos. Em todos esses lugares, o espírito de fé, pureza e gratidão permanece o mesmo.

Quanto tempo dura o Chhath Puja?

O Chhath Puja dura quatro dias consecutivos. Cada dia possui rituais específicos, que vão desde a purificação inicial e o jejum até as oferendas ao Sol poente e ao Sol nascente.

Por que o Chhath Puja é realizado perto de rios e corpos d’água?

A água é considerada um meio purificador e um elemento essencial para a vida. Realizar o Chhath Puja às margens de rios ou lagos simboliza a união entre Sol, água e ser humano, reforçando a harmonia com a natureza.

O Chhath Puja envolve templos ou sacerdotes?

Não. O Chhath Puja é único por não depender de templos ou sacerdotes. Os próprios devotos conduzem todos os rituais, mantendo uma forma direta, simples e ancestral de devoção.

Quando o Chhath Puja será celebrado em 2026?

Em 2026, o Chhath Puja será celebrado de sexta-feira, 13 de novembro, a segunda-feira, 16 de novembro, com o dia principal, Surya Shashthi, observado no domingo, 15 de novembro.