
Introdução
O Dussehra, também conhecido como Vijayadashami, é uma das celebrações mais importantes da Índia. O festival marca a vitória do dharma sobre o adharma e, em diferentes regiões, está associado a narrativas como a vitória de Rama sobre Ravana e de Durga sobre Mahishasura. Celebrado de maneiras distintas em todo o país, Dussehra reúne rituais, procissões, teatro popular e manifestações culturais que preservam tradições transmitidas por gerações.
Neste artigo, vamos conhecer a origem de Dussehra, seus significados, as principais formas de celebração em diferentes regiões da Índia e sua importância na cultura indiana contemporânea.
Quando Dussehra / Vijayadashami é celebrado
O Dussehra, também chamado de Vijayadashami, ocorre no décimo dia (Dashami) da quinzena clara (Shukla Paksha) do mês de Ashwin, segundo o calendário lunissolar tradicional da Índia. Ele encerra o ciclo de nove noites do Navratri, iniciado no primeiro dia (Pratipada) da mesma quinzena. Por seguir o calendário lunar, sua data varia no calendário gregoriano, geralmente entre o fim de setembro e outubro.
Em 2025, Dussehra foi celebrado em 2 de outubro; em 2026, será em 20 de outubro. Essa variação contrasta com festivais de base solar, como Makar Sankranti, que ocorre em janeiro.

Significados de Dussehra e VijayaDashami
O nome Dussehra tem origem no sânscrito Dasha-Hara, expressão que pode ser entendida como “a destruição dos dez”. Essa formulação está tradicionalmente associada à derrota de Ravana, o rei de dez cabeças, cuja figura simboliza múltiplos vícios humanos — como orgulho, raiva, inveja, apego, ilusão e ignorância. Celebrado sobretudo no Norte da Índia, Dussehra relembra a vitória de Rama, conforme narrado no épico Ramayana, e enfatiza a ideia de que o mal não é eliminado pela força bruta, mas pela retidão, pela disciplina e pela fidelidade ao dharma.
Já o termo Vijayadashami, amplamente utilizado no Sul e no Leste da Índia, é mais literal em sua construção. Ele combina Vijaya (vitória) com Dashami (décimo dia), referindo-se diretamente ao décimo dia do ciclo lunar de Ashwin. Esse é o dia que encerra Navratri e Durga Puja, celebrando a vitória da deusa Durga sobre Mahishasura e simbolizando a restauração da ordem cósmica após um período de conflito. Aqui, o foco recai sobre a energia divina, a proteção e a renovação espiritual após nove dias de devoção.

Dussehra nas Escrituras e nas Tradições Sagradas
Para quem não nasceu na Índia — inclusive muitos brasileiros — os termos Dussehra e Vijayadashami costumam soar como se fossem dois festivais distintos. Na prática, porém, ambos se referem ao mesmo dia do calendário hindu. O que muda não é a data, mas a lente cultural e narrativa por meio da qual esse dia é celebrado.
A Vitória de Rama sobre Ravana
No Norte da Índia, a interpretação mais difundida de Dussehra está ligada ao Ramayana. Segundo a tradição, Rama, príncipe de Ayodhya e conhecido como Maryada Purushottam, enfrenta Ravana, rei de Lanka, após o rapto de sua esposa Sita. Com a ajuda de Hanuman e dos vanaras (seres tradicionalmente descritos como semelhantes a macacos), Rama derrota Ravana e restaura a ordem. Essa vitória é celebrada no Dussehra como o triunfo do dharma sobre o adharma.
Por isso, em muitas cidades do Norte da Índia, enormes efígies de Ravana, frequentemente acompanhadas pelas de Kumbhakarna, seu irmão, e Meghnath (Indrajit), seu filho, são queimadas ao entardecer diante de grandes multidões. O ritual representa simbolicamente a derrota de Ravana e das forças associadas ao orgulho e à transgressão do dharma.

O Triunfo de Durga sobre Mahishasura
No Leste da Índia, especialmente em Bengala Ocidental, Odisha e partes do Nordeste, Vijayadashami está fortemente ligado ao Durga Puja. Segundo a tradição, Durga derrota Mahishasura, um demônio capaz de mudar de forma que ameaçava a ordem do mundo. A batalha se estende por nove dias, culminando no décimo dia, quando sua vitória é celebrada como o triunfo da ordem sobre o caos.
Em Bengala, Vijayadashami encerra o Durga Puja com o Visarjan. As imagens da deusa são levadas em procissão e imersas em rios ou no mar, marcando simbolicamente sua despedida.

A História de Arjuna e a Guerra do Mahabharata
Outra tradição importante associada a Vijayadashami vem do épico Mahabharata e está ligada à trajetória de Arjuna, um dos maiores arqueiros entre os Pandavas (os cinco irmãos protagonistas do épico).
Entre suas armas divinas estava o poderoso Pashupatastra, obtido após um combate com um misterioso caçador na floresta. Segundo a tradição, o caçador era uma manifestação de uma divindade que testava Arjuna antes de lhe conceder a arma. Durante o período de exílio imposto aos Pandavas, Arjuna vive disfarçado no reino de Virata, ocultando sua verdadeira identidade. Antes de entrar nesse último ano de anonimato, ele esconde suas armas em uma árvore shami, planejando recuperá-las quando chegasse o momento certo.

No décimo dia, quando o reino de Virata é atacado, Arjuna recupera suas armas, revela sua identidade e derrota os invasores. O episódio simboliza o fim do ocultamento e o retorno à ação. Por essa razão, Vijayadashami é considerado um dia auspicioso para iniciar ou retomar atividades como estudos, treinamentos, música, escrita e artes marciais.
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Rituais Mais Importantes de Dussehra
Ramlila
A Ramlila é uma das tradições mais marcantes associadas ao Dussehra. São encenações teatrais que dramatizam episódios do Ramayana ao longo de vários dias, combinando diálogos, música, trajes tradicionais e participação comunitária. A tradição é especialmente conhecida no norte da Índia, com apresentações importantes em cidades como Varanasi, Ayodhya e Delhi. Em algumas localidades, as encenações fazem parte das celebrações que antecedem Vijayadashami e culminam com a derrota de Ravana.

Queima de Ravana
Em muitas regiões da Índia, especialmente no norte do país, Vijayadashami é marcado pela queima das efígies de Ravana, Kumbhakarna e Meghnath. As grandes estruturas são erguidas em espaços abertos e podem ser decoradas com tecidos e fogos de artifício.
Durante a cerimônia, uma flecha simbólica associada a Rama inicia a queima das efígies. O ato representa a derrota de Ravana e encerra simbolicamente a narrativa do Ramayana encenada durante os dias anteriores.
A tradição assume diferentes formas conforme a região, mas a queima das efígies tornou-se uma das imagens mais reconhecidas de Dussehra.
Durga Puja e Visarjan

Em várias partes da Índia, o período de Navratri e Vijayadashami inclui cerimônias de visarjan, nas quais imagens de divindades são levadas em procissão para serem imersas na água. A prática aparece em diferentes festivais e possui formas e significados que variam conforme a região.
Um dos exemplos mais conhecidos ocorre em Bengala Ocidental, onde Vijayadashami encerra o Durga Puja. Nesse dia, as imagens de Durga são levadas em procissão para a imersão, acompanhadas por música, dança e participação popular.
Antes da despedida, ocorre o tradicional Sindoor Khela, no qual mulheres casadas aplicam vermelhão umas nas outras como parte das celebrações. A imersão marca o encerramento do festival e a despedida simbólica da deusa até o próximo ciclo festivo.
A seguir está uma belíssima canção em língua marathi dedicada à Deusa Durga, extraída do filme marathi Dharmaveer. A música carrega uma força devocional intensa, combinando reverência, emoção e identidade cultural, e expressa a presença protetora da Devi como energia viva que guia, fortalece e ampara seus devotos.

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Ayudha Puja
A Ayudha Puja é realizada em diferentes partes da Índia durante o período de Dussehra para homenagear os instrumentos utilizados no trabalho, nos estudos e em atividades do cotidiano. Ferramentas, livros, instrumentos musicais, armas, computadores e veículos podem ser limpos, decorados e colocados diante da divindade durante a cerimônia.
O ritual possui especial importância no Sul da Índia, incluindo estados como Tamil Nadu, Karnataka e Kerala, mas também é praticado em outras regiões, como Maharashtra. A forma da celebração varia conforme a tradição local, familiar ou profissional.

Shami Puja
O Shami Puja é realizado em algumas regiões da Índia durante Vijayadashami, especialmente em Maharashtra, onde a árvore Shami é reverenciada como parte das celebrações. Outro costume tradicional do estado é a troca de folhas da apta (Bauhinia racemosa), oferecidas simbolicamente como “ouro”. Crianças e adultos entregam as folhas a familiares, amigos e vizinhos, acompanhando o gesto com votos de prosperidade e bons desejos para o novo ciclo.
Vidyarambham

Em Kerala, Vijayadashami é especialmente associado ao Vidyarambham, ritual que marca o início formal da aprendizagem. Crianças pequenas escrevem suas primeiras letras com a orientação de um mestre, sacerdote ou familiar, geralmente em cerimônias realizadas em templos ou outros espaços dedicados à educação e à devoção.
O primeiro ato de escrita simboliza a entrada da criança no caminho do conhecimento, tornando Vijayadashami uma data especialmente importante para famílias que desejam marcar o início da educação de seus filhos.
Kullu Dussehra
Em Kullu, no Himachal Pradesh, o Dussehra apresenta uma característica incomum: as celebrações começam no dia de Vijayadashami, em vez de terminar nele. O festival continua por cerca de uma semana e reúne dezenas de divindades locais, conhecidas como Devtas, trazidas em procissões de diferentes vilas do vale.
O encerramento inclui o Lanka Dahan, uma cerimônia que representa a destruição de Lanka. Diferentemente de outras celebrações de Dussehra, Kullu não se concentra na queima de grandes efígies de Ravana. O festival destaca principalmente o encontro entre as divindades locais e a participação comunitária.
Outras formas regionais de celebrar Dussehra
O Dussehra assume diferentes formas conforme a região. Em Mysore, Karnataka, o Mysore Dasara combina devoção e tradição real, com o Palácio de Mysore iluminado e uma grande procissão no décimo dia, acompanhada por elefantes decorados e músicos.
No Tamil Nadu, o Golu é uma exposição doméstica de bonecos organizada em degraus, com representações de divindades, animais e cenas do cotidiano. As famílias recebem visitantes durante o período festivo, preservando uma tradição que une devoção e cultura.
A culinária também faz parte das celebrações, com alimentos preparados para compartilhar após os rituais. Entre os mais conhecidos estão samosa, rasgulla, jalebi e gulab jamun, consumidos em diferentes regiões e ocasiões festivas da Índia.

Curiosidades Fascinantes sobre Dussehra
As efigies gigantes podem chegar a 80 metros
As efígies gigantes de Ravana são verdadeiros monumentos temporários, podendo atingir alturas impressionantes que, em algumas regiões, superam 20 a 30 metros — e há registros locais de estruturas experimentais que se aproximaram dos 65 a 75 metros, construídas por comunidades especializadas no norte da Índia. Artesãos passam semanas trabalhando com bambu, madeira, papel machê, tecido colorido e engenharias complexas de fogos de artifício. Cada camada é pintada à mão, decorada com padrões tradicionais e preparada para a espetacular queima pública. O resultado é uma fusão rara de arte popular, engenharia comunitária e espetáculo cultural.

Ravana é honrado em alguns lugares
Embora Dussehra seja amplamente associado à derrota de Ravana por Rama, algumas tradições o apresentam de forma diferente: como um rei erudito, grande devoto de Shiva e músico habilidoso, associado à veena. Ravana também é tradicionalmente considerado o autor do famoso Shiv Tandav Stotram, um poderoso hino dedicado a Shiva. Nessas tradições, sua sabedoria, devoção e conhecimento das artes são valorizados, mostrando como sua figura pode receber interpretações diferentes dentro das diversas tradições indianas. Ravana também ganhou vida no cinema, sendo retratado em filmes baseados no Ramayana por diferentes indústrias cinematográficas da Índia, que exploram as muitas faces de um personagem tão fascinante quanto controverso.
Ramayana alem da Índia

Embora Ayodhya seja o coração espiritual das Ramlilas, a narrativa do Ramayana ultrapassou fronteiras e ganhou novas formas em diversos países do Sudeste Asiático. Na Indonésia, especialmente em Java, o épico é apresentado em performances de dança-teatro como o Wayang Wong e em sombras tradicionais Wayang Kulit. No Camboja, a história é reinterpretada no clássico Reamker, encenado por trupes reais e artistas populares. No território do antigo reino de Champa — hoje parte do Vietnã — versões adaptadas do épico aparecem em esculturas, tradições narrativas e literatura indianizada, refletindo antigas conexões culturais com a Índia
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O Dia Preferido Para Comprar Ouro e Bens Valiosos
No Vijayadashami, muitas famílias indianas seguem a crença de que tudo o que é iniciado ou adquirido nesse dia prospera. Por isso, é comum ver pessoas comprando ouro, veículos, eletrodomésticos e até imóveis. As joalherias ficam lotadas, concessionárias fazem promoções especiais e lojas exibem símbolos de boa fortuna. Esse hábito vem da ideia de que Vijayadashami é um dos dias mais auspiciosos do ano, quando a energia positiva da vitória de Durga e Rama abençoa novos começos. Comprar algo importante nesse dia é visto como um convite à prosperidade futura.

Conclusão
Dussehra é um festival de celebração, reflexão e renovação. Suas diferentes narrativas — da vitória de Rama à de Durga e ao retorno de Arjuna à ação — apresentam formas distintas de compreender a superação do conflito e a restauração da ordem.
Mais do que recordar histórias tradicionais, o festival também convida à reflexão sobre desafios presentes na vida cotidiana, como medo, orgulho, apego e ignorância. A vitória do dharma se expressa, assim, não apenas nas grandes narrativas, mas também nas escolhas e atitudes de cada dia. Celebrado de maneiras diferentes por toda a Índia, Dussehra preserva uma característica comum: marcar o fim de um ciclo e o início de outro, reunindo tradição, devoção, cultura e esperança de renovação.
Perguntas Frequentes
Qual é a diferença entre Dussehra e Vijayadashami?
Os dois nomes se referem ao mesmo dia, mas com tradições diferentes. No Norte da Índia celebra-se a vitória de Rama sobre Ravana (Dussehra), enquanto no Leste e Sul destaca-se o triunfo de Durga sobre Mahishasura (Vijayadashami).
Dussehra marca o fim de Navratri?
Sim. Vijayadashami ou Dussehra é sempre o décimo dia que encerra o período de nove noites de Navratri, dedicado às diferentes formas da Deusa.
Por que Ravana é queimado em Dussehra?
A queima de grandes efígies de Ravana, Kumbhakarna e Meghnath simboliza a destruição do mal e o triunfo do dharma, lembrando a vitória de Rama descrita no Ramayana.
O que acontece durante Vijayadashami em Durga Puja?
No Leste da Índia, especialmente em Bengala, este dia marca o visarjan — a imersão das imagens da Deusa Durga — encerrando o festival após sua vitória sobre Mahishasura.
Por que Vijayadashami é considerado um dia muito auspicioso?
Porque é visto como o momento ideal para iniciar estudos, abrir novos negócios, aprender música, começar treinamentos, adquirir ferramentas ou realizar rituais de bênção familiar.
O que é Sindoor Khela?
É um ritual tradicional bengali no qual mulheres casadas aplicam sindoor (pó vermelho) umas nas outras durante Vijayadashami, simbolizando prosperidade, proteção e continuidade da vida familiar.
Como o festival é comemorado no Sul da Índia?
Além do Golu — a exposição de bonecos dispostos em degraus — também ocorre o ritual Vidyarambham, no qual crianças escrevem sua primeira letra em um templo, simbolizando o início sagrado do aprendizado.
Por que estrangeiros costumam confundir Dussehra e Vijayadashami?
Porque ambos são celebrados no mesmo dia, mas com narrativas regionais diferentes: Rama e Ravana no Norte; Durga e Mahishasura no Leste e Sul, criando múltiplas leituras do mesmo festival.
Quando será celebrado Dussehra / Vijayadashami em 2026?
Em 2026, Dussehra ou Vijayadashami será celebrado em 20 de outubro, marcando o décimo dia do mês lunar de Ashwin e o encerramento de Navratri.
Dussehra e Vijayadashami são feriados em toda a Índia?
Sim. Dussehra/Vijayadashami é um dos principais feriados nacionais da Índia, embora as formas de celebração variem conforme a região, a tradição local e o contexto cultural.




