
Em um intervalo de pouco mais de três meses, entre o final de fevereiro e o início de junho, o atletismo indiano viveu uma fase histórica com a quebra de 20 recordes nacionais. Esse fenômeno impressionante ocorreu em várias modalidades e faixas etárias, refletindo uma mudança profunda na forma como o esporte é gerido e apoiado na Índia.
Um Muro Sendo Derrubado: Recordes em Sequência
Os números impressionam: três novos recordes masculinos nos 100 metros foram estabelecidos em apenas dois dias; a marca dos 400 metros masculinos caiu para menos de 45 segundos; a barreira dos 8.000 pontos foi ultrapassada no decatlo; e um antigo recorde de maratona, que resistiu por cinco décadas, baixou de 2 horas e 12 minutos para 2 horas, 11 minutos e 58 segundos.
Essas conquistas se espalham por diferentes gerações. A jovem Pooja Singh, de 19 anos, reescreveu um recorde de salto em altura feminino que durava 14 anos, enquanto a experiente Parul Chaudhary, de 31 anos, melhorou sua marca nos 5.000 metros. Além disso, meia dúzia de recordes em pista coberta (indoor) também foram superados.
O Modelo de Descentralização da AFI
Esses recordes não aconteceram por acaso. Uma peça-chave para o sucesso recente foi o modelo de descentralização introduzido após as Olimpíadas de 2024, que deu aos atletas a liberdade de treinar fora dos acampamentos nacionais.
Neste novo cenário, os atletas possuem total liberdade para escolher seus locais e métodos de treinamento. Eles podem optar por trabalhar com técnicos estrangeiros, utilizar o suporte e os profissionais de organizações como a Reliance Foundation e a JSW Sports, ou mesmo treinar em centros estaduais. Essa flexibilidade estrutural foi o que permitiu aos patrocinadores privados integrarem, de forma definitiva, sua infraestrutura avançada e expertise técnica ao ecossistema do atletismo nacional.
Velocidade e a Quebra de Barreiras Mentais
O impacto da descentralização é evidente no progresso dos velocistas masculinos. O recorde dos 100 metros caiu cinco vezes em pouco mais de um ano, de 10.20s para 10.09s. Todas essas novas marcas foram estabelecidas por atletas treinando na Reliance Foundation com técnicos estrangeiros.
James Hillier, diretor de atletismo da Reliance Foundation, destacou a importância da psicologia no esporte após Gurindervir Singh se tornar o primeiro indiano a correr abaixo de 10.10s. Segundo ele, quando um atleta rompe uma barreira mental, outros logo seguem o exemplo, sabendo que é possível. O mesmo se aplica aos 400 metros, onde Vishal KT, o primeiro indiano a correr abaixo dos 45 segundos, atribuiu seu sucesso ao rígido técnico estrangeiro Jason Dawson, provando que a personalização do treinamento — e não um modelo único — é o caminho para o topo.
O Papel do Setor Privado e Logística
Instituições privadas como a JSW Sports (através do Inspire Institute of Sport – IIS) e a Olympic Gold Quest (OGQ) trouxeram um suporte estrutural antes inexistente. Robert Bobby George, cujo centro de alta performance abriga a recordista Pooja Singh com apoio da OGQ, nota que as novas gerações preferem essa liberdade de escolha de treinadores em vez do controle restrito dos acampamentos nacionais.
Manisha Malhotra, presidente do IIS, ressaltou que os patrocinadores privados agregam valor ao trazer especialistas e gerenciar carreiras de forma integral. Um exemplo prático disso é o de Tejaswin Shankar, campeão da NCAA e o primeiro indiano a cruzar os 8.000 pontos no decatlo. Sendo um atleta da Reliance Foundation, ele contou com uma equipe logística e de especialistas (fisioterapeutas e nutricionistas) que cuidou inclusive do transporte de suas pesadas varas de salto de 15 kg (cobrindo as altas taxas de excesso de bagagem em voos), permitindo que ele se focasse apenas na performance.
Mais Competições e Perspectivas Futuras
Outro fator crucial foi o aumento das competições domésticas. A Índia conta agora com 40 competições espalhadas por cerca de 200 dias de eventos por ano. A AFI passou a exigir a participação em pelo menos duas competições para as provas finais, quebrando a antiga mentalidade dos atletas de se pouparem para evitar lesões. O resultado é claro: a competitividade constante tem gerado quebras de recordes frequentes.
Com os Jogos da Commonwealth e os Jogos Asiáticos no horizonte, as expectativas estão altas. Adille Sumariwalla acredita ser apenas uma questão de tempo para que o país conquiste ainda mais glórias, embalado pelas 29 medalhas nos Jogos Asiáticos de 2023.
Acompanhe nosso blog e descubra as principais novidades do esporte na Índia.
